
Esta é contada na primeira pessoa.
Em 2006, ligaram-me às 4 da madrugada a informar que a minha loja tinha sido assaltada, e que era melhor ir já para lá.
Lá fui eu, cheio de sono e expectativa para ver o que se tinha passado.
Quando lá cheguei encontrei a policia, os vizinhos, o alarme já sem forças de tanto tocar e aporta arrobada. O que não encontrei foram 3 portáteis, por os tinham levado.
Todo lixado, lá tratei das coisas, fechei novamente a porta e voltei para a cama.
E pensei eu…
«-Esta merda tinha de se dar. Se os computadores são portáteis bem que podia tê-los trazido.»Enfim as grandes soluções depois do mal feito.
Na manhã seguinte, que por sinal era Sábado, ainda estava meio atordoado mas lá fui à policia tratar das participações. Disseram-me logo que ia ser muito difícil reaver qualquer coisa, mas prometeram tentar.
Quando fui almoçar, a comida não queria entrar. O sentimento de injustiça, por ter ficado sem as minhas coisas estava a bloquear a traqueia.
Foi então que decidi que não ia ficar sem as minhas coisas, sem pelo menos dar luta.
Liguei a um amigo, que por acaso era vizinho da loja, e que alertado pelo alarme ainda viu uns tipos fugirem de mota ( e que é um tipo bem relacionado) para saber todos os detalhes que me pudessem ajudar.
Lá me disse que eram uns rapazitos novos, com um DT 50, com um capacete escuro. Mas também me disse que se um precisa-se de ajuda podia contar com ele. Agradeci e aceitei.
Levou-me para um bairro daqueles maus, para falar com um Amigo, que por sinal também era dos maus e que tinha acabado de sair da prisão numa precária. Gente Fina, tão a ver.
Diz lá o rapaz, do alto do seu metro e oitenta bem medidos, «epá só com essas indicações não tou a ver, mas vai falar com o bófia que esteve lá que ele diz-te logo quem é, depois vamos ter com ele».
Dito e feito. Diz-me o
Bófia
- Com uma DT aí na Zona deve ter sido o Marocas.
E lá fomos à procura do rapaz. Falamos com os vizinhos, e o meu Amigo recente ia sempre pedindo para lhe darem o recado de que se ele tivesse sorte, podia ser que a policia o encontrasse primeiro que nós.
Liguei também para um amigo, que eu supunha que pudesse saber onde parava o Marocas, mas em vão- No entanto prometeu que ia tentar saber mais alguma coisa, e já voltava a ligar-me. Efectivamente ligou-me mais tarde a dizer que já tinha falado com ele, mas que ele dizia que não tinha nada a ver com o sucedido, mas de qualquer das formas avisou-o que andavam à procura dele, e que mais tarde ou mais cedo iriam acabar por encontra-lo.
Continuamos o périplo.
Nisto toca o telemóvel. Era o Marocas que estava na loja e queria falar comigo.
Chegados lá, após amena cavaqueira, lá nos disse que já roubou muita, mas que desta vez não tinha sido ele e que não queria problemas com a policia, porque os que já tinha já lhe chegavam. Mas sabia quem foi e onde estavam e desde que eu disse-se à policia que não tinha sido ele, nos levava até ele.
Estávamos cada vez mais perto. Eu, com tanta investigação e caça ao homem, ladrões e cadastrados, já me sentia no meio de uma serie policial ( tipo a Balada de Hill St. , para que se lembra )
Lá fomos com o Marocas ter com os outros.
Quando os encontramos, no sitio onde nos foi dito que os encontraríamos, o meu Amigo, que até os conhecia muito bem porque lhe deviam umas massas, tomou a dianteira do grupo.
-Mano, descalça-te. Disse ele para o que lhe devia dinheiro.
- Ah desculpa lá a cena do guito, mas eu vou pagar…
- Mandei-te falar?
- Não…
- Então cala-te e descalça-te.
O Medo era mais que muito, e a tremer por todo o lado lá obedeceu.
- Agora mete o fio, o relógio, o telemóvel a carteira, a chave da mota e tudo o resto nos sapatos.
Depois de mais uma tarefa concretizada com êxito, sentou-se ao lado do Pés-Ao-Vento, pôs-lhe uma botifarra, com o seu respectivo pé lá dentro, em cima dos dedinhos de um pé e perguntou muito baixinho.
- Sabes que é aqui o meu amigo?
- Não…
- È o dono da loja onde foste roubar 3 portáteis, mas agora vais devolvê-los, não é.
Isto num tom de voz no timbre mais meigo que conseguiu, e mesmo assim era assustador, enquanto lhe pisava com mais força.
- Mas olha, cuidado com a resposta, que além dos nossos probleminhas antigos, estava a preparar-me para ir para a cama com a minha
girl, e por tua causa tenho de estar aqui.
- Ah fui eu e ele…
- Então ele pega na mota, e vai buscar já os computadores, enquanto nós ficamos aqui à conversa. Dez minutos vai e vem, e nós ficamos a fumar um cigarro. Se ele não chegar esborracho-te os dedinhos todos.
Dito e feito, lá arrancou o outro, e nós, eu e o meu Amigo ficamos na cigarrada, o outro ficou a ver porque não foi autorizado a fumar.
Lá chegaram os computadores, com malas, ratos e tudo.
Diz-me o meu Amigo:
- Agora devia dar-lhe umas mocadas, só para ele não se esquecer…
- Caga nisso, que eu vou fazer queixa à polícia e depois eles que se entendam.
Tirei os dados dos Assaltantes, e voltei para a Loja com o material.
Ainda me lembro, do ar triunfal, com que entrei na Loja, com os 3 portáteis debaixo do braço. Vizinhos e colegas de trabalho olharem para mim com ar de admiração ( eu pelo menos achei que era esse o sentido do olhar dele, vai na volta até nem era…)
Na segunda feira seguinte, depois de muito reflectir sobre se deveria ir apresentar os dados de quem me roubou à policia, e de decidir que como cidadão responsável a única alternativa que tinha era a queixa, já que o risco de represálias não me assustava, dirigi-me à esquadra.
Contei a história e apresentei a queixa contra os indivíduos.
Os policias, por entre elogios à minha atitude, lá me iam tentando explicar que eles não podia agir da mesma forma que nós, que não tinham poder, e porque podia se acusados de excesso de violência, enfim, foi uma manhã inteira para a papelada, já que o sistema informático, estava sempre a cair, sendo a única solução fazer tudo de novo.
Giro foi o policia de investigação que calhou no caso, ser um velho conhecido, que muitos copos me serviu, no saudoso Jovania, que era do Chico.
Fui chamado mais 3 vezes à esquadra. Em duas delas, à filme, meteram uns tipos atrás de um vidro espelhado ( que aqui na esquadra é o vidro da porta que dá acesso ao primeiro andar, enquanto os sujeitos ficam na escada ) para eu identificar os Meliantes ( ainda hoje tou para saber o porquê do vidro espelhado, dado que depois ficamos todos juntos no corredor ), e outra foi para me fazerem umas perguntas sem jeito nenhum, mas como a decisão de ser um bom cidadão estava tomada, e eu decidido a que pagassem pelo que fizeram para que não acontecesse o mesmo a outras pessoas, lá fui levando a coisa com boa disposição.
Depois foi passando o tempo.
Às vezes lembrava-me do processo, mas como os tribunais são lentos, e a coisa também não tinha grande importância, também não me preocupei.
Qual não é o meu espanto, quando por um destes dias recebo uma carta do Tribunal. Nem estava a ver do que seria até abrir a carta.
Era então uma carta a informar-me que o processo tinha sido arquivado, já que não havia provas suficientes, e os rapazes não confessaram, limitando-se a manter-se o silêncio durante os interrogatórios. Um direito que têm…estar calados…já lá vai o tempo dos interrogatórios à chapada…e ainda bem…quer dizer às vezes…
Fui também informado, que apesar de já terem sido julgados por casos idênticos, e condenados a penas suspensas, neste apenas se podia provar que estavam na posse do material roubado, ( não sei como é que provavam isto e o resto não ) e não o roubo em si, logo o crime seria de receptação de objectos furtados. Mas como a pena para eles seriam muito pequena, o Ministério Público decidiu arquivar o caso.
Quer dizer andei este tempo todo, a perder tempo, eu e os polocias, para elaborar um processo, que arquivam assim.
Provas?
Porra, então eles tinham os computadores, e devolveram-nos, que mais provas seriam necessárias.
Andei eu a dar a cara, arriscado a levar uma mocada para nada.
Olha se tivesse dado uma coça nos tipos tinha-se perdido alguma coisa? Se os leva-se à esquadra todos arrebentados, e prontos a confessar, talvez a coisa tivesse andado.
Bom, provavelmente, ia ser condenado por ofensas corporais, caso houvessem provas, né…
PS1: A vida de Polícia deve ser uma frustração do diabos. Andam não sei quanto tempo a investigar, arriscam-se a levar um balázio para prender um tipo, que o Juiz põe cá fora no mesmo dia.
Assim, a proliferação dos Gangs organizados encontra um sistema perfeito. Se for menos não acontece nada, porque é menor, se for estrangeiro ilegal, tem 3 meses para sair do país, e mesmo que o faça, volta logo com outro nome, se for primário, é porque foi a primeira vez se violar crianças da Casa Pia, também acaba por sair, e muito provavelmente por ser indemnizado em milhares de euros pelo estado, e por aí fora.
As vezes é muito triste ser Português.
PS2: Fico a dever uma outra história, ainda mais vergonhosa, mas que ainda se encontra em segredo de justiça. Uma daquelas com assassinos, ameaças de morte, e tentativa de extorsão à mistura, mas ainda vamos ter de esperar uns dias, ou meses ou até mesmo anos que o caso se resolva, mas fica prometido.
PS3: Obrigado Osvaldo, Cotti e JJ