É DE FICAR TOM-TOM-TO

Recentemente tive a confirmação: o fim do mundo está próximo! Está tudo perdido! Precisamos de algo que nos guie nestes tempos de escuridão. Desta necessidade generalizada surgiu o salvador: o GPS.
A avaliar pela quantidade de pessoas que agora tem este tipo de equipamento, e pelas que vão receber um no Natal, começo a desconfiar que o número de pessoas perdidas é bem maior do que imaginava. Anda tudo perdido em busca de um destino e o GPS é a luz que os guiará à salvação.
Já nos saudosos anos dos descobrimentos portugueses terá acontecido o mesmo com o astrolábio. Com saudosos não quero dizer que, em nome de uma religião, deveríamos voltar a explorar o mundo e a dizimar culturas diferentes da nossa. A saudade aqui é da época em si, onde era comum, ver-se o astrolábio como uma chave de acesso às classes superiores, ficando o detentor de tal equipamento a sentir-se parte integrante da epopéia nacional, além de ser dono de uma peça tecnologicamente avançada. Alguns até o sabiam usar e o resultado disso foi a “descoberta” do Brasil e de outros coitados que, sem ter culpa nenhuma, lá tiveram de ser “descobertos”…
Voltando ao presente, e visto que as modas são coisas que vão e voltam, cá estamos nós a enaltecer o espírito de aventureiro, partindo uma vez mais à descoberta mas agora mais bem equipados, relegando para segundo plano o típico acto conjunto de abrir a janela e perguntar, numa voz bem colocada; “Olhe se faz favor, não me sabe dizer onde fica a Av. Dos Descobrimentos?”.
Agora, graças ao salvador, estamos certos de chegar sempre ao destino, nem que seja no trajecto de todos os dias do Fogueteiro para Lisboa.
Também a publicidade a este gadjets me deixa fascinado. Em letras gordas na imprensa ou em frases feitas na rádio fica-se a saber que os mais recentes aparelhos podem até indicar a localização exacta dos todos radares da polícia. Não era suposto esta ser informação secreta? Na minha ignorância sempre acreditei que é mais fácil apanhar um criminoso quando ele não sabe que está a ser observado. Isto até pode ser facilmente provado com o adultério; não é à toa que os casais adúlteros se escondem para enganar os seus conjugues. Se bem que se houvesse um GPS que indicasse a localização exacta do conjugue seria, certamente, um sucesso de vendas.
Interessante é que esta base de dados de radares foi criada por um português, que ingenuamente a disponibilizou online para que qualquer condutor saiba onde deve, ou não, acelerar, fugindo assim ao bigbrother policial. Digo ingenuamente porque este senhor esqueceu-se que, nos dias de hoje, a informação é poder, e paga-se caro. Assim nem ele nem os cofres dos estado ficaram mais ricos, apenas as empresas que, usando toda a informação pacientemente recolhida por este senhor, tem mais argumentos de venda.
Não consigo perceber a legalidade disto. Limites de velocidade há em todo o lado, assim como criancinhas a correr atrás de bolas. Ter acesso ao locais onde estes radares se encontram apenas acentua o espírito de street-racer que há em cada um de nós, criando áreas verdes para os aceleras, verdadeiros paraísos limpos de controlo. Faz-me pensar naquelas pessoas que fazem sinais de luzes para avisar que a brigada de trânsito se encontra mais à frente. No meu ponto de vista quem não deve não teme, e se há bandidos na estrada que sejam todos apanhados com o objectivo de minimizar as mortes nas estradas. Em quantos já vão? 2 por dia? 3?
Só espero que quando a bola e a criancinha saltarem para a estrada numa dessas Radar-free-zone, que os travões da viatura sejam tão modernos e avançados como o GPS.


